Mariana Barros é artista transdisciplinar e curadora de rituais. Entre fotografia, pintura, performance e poesia, investiga as relações entre corpo, memória, ancestralidade e espiritualidade. Formada em Artes Plásticas pela UFRJ, com extensão em pintura pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage, faz da própria existência sua criação.

A ancestralidade inscreve-se na pele. O tempo se dobra, retorna, renasce. Vida, morte e vida habitam a mesma pulsação. Experiências de expansão da consciência com Ayahuasca, Jurema e Peyote inspiram sua criação, atravessada por uma espiritualidade selvagem. O corpo é terreiro, morada da memória e inscrição ancestral. A arte é oferenda, é consagração.

Ritualidades é o eixo de sua pesquisa: a arte de ritualizar a existência. Rupturas, celebrações, abismos e transgressões atravessam sua criação. A vulnerabilidade ganha força poética.

Em Fecunda, flores, conchas e oferendas formam instalações efêmeras às margens de rios, mares e manguezais. Altares vivos. A Mentoria Fecunda reúne escrita, pintura, performance e criação de altares em processos de cura, manifestação e reinvenção da própria história. Cada pessoa descobre sua maneira singular de rezar através da arte.

Sagração investiga a performance como reza encarnada. Corpo, palavra e presença se encontram numa poética ritual. A reza ganha corpo, a performance se faz devoção.

Oceana nasce do encontro entre pintura, Ayahuasca e estados holotrópicos de consciência. Pinturas de cura emergem dessa experiência, trazendo imagens e mensagens que encontram expressão na cor e na matéria.

Altar Fértil investiga a experiência sensorial do corpo como altar. Pigmentos naturais desenham na pele imagens de força, proteção e liberdade.

Entre Corpos parte de uma roupa que guarda a memória de uma ruptura. Em diálogo com Cut Piece, de Yoko Ono, o corte ritual desfaz a vestimenta até revelar o corpo nu. A pele torna-se então superfície de uma escrita ritual: palavras e desenhos inscrevem uma reza que transforma a memória da dor.

Puta Luz convoca a prostituta sagrada como presença de insubordinação e divindade. Na superfície da pele, erotismo e devoção se inscrevem; cristais e imagens de santas e divindades compõem um território ritual. O corpo feminino torna-se altar, onde o sagrado e o desejo se encontram.

Devoção Nua nasce no ventre fértil do mangue. Mulheres nuas encontram a lama, as águas e os espelhos em um ritual de entrega e transmutação da dor. O corpo retorna à natureza, à sua matéria primordial, à beleza indomável da vida.

Em Lixo Antropofágico, o lixo se revela como altar desta civilização. Entre restos e imagens sagradas, classes, crenças e matérias se misturam numa alquimia do descarte. A performance faz desse território um terreiro, onde ancestralidade, devoção e excesso convivem. O que a sociedade descarta reaparece como sinal do que cultua.

Arte na Morte propõe rituais de passagem inspirados na jornada vida. Sob a presença da Deusa Morte, a arte torna-se divindade: poesia, pintura e natureza compõem despedidas que consagram a travessia.

AFlor acompanha a passagem da infância à adolescência. Mentorias, retiros e experiências artísticas aproximam meninas de seus corpos, da natureza e dos saberes ancestrais. Rituais como travessias de autoconhecimento e criação, honrando a divindade que habita cada corpo.

Mariana cria a partir das fendas, daquilo que pulsa, rompe e renasce. Sua obra atravessa a dor, a memória e o desejo. Cada criação nasce de uma travessia e deságua em outra, como as águas que encontram novos cursos.

Transformar a dor em beleza é o princípio vital de sua poética. Um movimento contínuo de morte, gestação e renascimento, em que a própria vida deságua em criação.